Autossuficiência alimentar e sobrevivencialismo


Esse é meu primeiro texto para o blog depois de ter sido convidado pelo Saulo. A quem agradeço pelo convite e consideração por minhas ideias.

Nos meus textos vou tentar desenvolver assuntos referentes à sustentabilidade – pelo viés do aproveitamento e reutilização de materiais diversos -, botânica – plantas medicinais e plantas alimentícias convencionais e não convencionais -, cuidados e criação de animais (tema no qual devo ainda me aprimorar quando ingressar no curso de veterinária), permacultura e alguns temas pertinentes a conservação, fabricação de alimentos, reviews de livros sobre esses temas. Sempre tentando fazer links e análises com perspectivas sobrevivencialistas. Eventualmente posso escrever sobre outra coisa, mas estes são os temas centrais, aqueles que mais me interessam e sobre os quais dedico alguma parte do meu tempo estudando e praticando. Críticas e considerações serão sempre bem vindas.

Dito isso gostaria de começar meus textos falando sobre um assunto pouco debatido – apesar de ser sempre bem debatido – na comunidade prepper ou nos grupos que participo e observo: a autossuficiência na produção de alimentos.

Na história da humanidade agrupamentos diversos - mesmo nômades e caçadores coletores-  plantaram ou pastorearam rebanhos por muitos milênios antes de podermos comprar comida em mercados. Sendo que para muitos desses povos essas atividades foram tão cruciais que se tornaram sagradas ou bases de sua cultura, vide como os povos Nuer e Dinka do Sudão do Sul lidam com o gado, a relação de culturas ameríndias com o milho e a mandioca, a relação dos Tuareg com os camelos, entre diversos outros exemplos histórico sociais. Não precisamos colocar a produção de comida na base central da cultura prepper, mas ignorar métodos de produção e obtenção de alimentos pode ser um erro grave.



Então porque produzir alimentos e tentar ser autossuficiente na produção de alimentos? Em crises uma das primeiras comodidades modernas abaladas será o comércio, esse assunto é amplamente discutido em comunidades preppers, mas raramente se fala que os estoques de bens podem não durar por todo o período de uma crise pós-SHTF ou serem abalados por algum evento (contaminação, destruição total ou parcial ou mesmo saques).  Ou ainda um caso mais simples e próximos do nosso cotidiano diário dos impactos derivados de crises econômicas: hiperinflação, desemprego, falência de empresas. Em todas essas situações conseguir produzir os próprios alimentos é uma fonte quase 100% segura de sempre ter comida a mesa e manter você, sua família ou mesmo sua célula de articulação central e ainda gerar possíveis moedas de troca de modo a superar mais facilmente as crises.

Muita gente pensa que são necessários grandes espaços para produzir grandes quantidades de comida, mas estão enganadas. Pode-se produzir uma quantidade razoável de comida em um pequeno quintal ou mesmo em um apartamento com sistemas integrados de produção vertical, “telhado verde”, “horta de metro”, pequenos viveiros, criação de peixes em caixa d’água, criação de insetos para alimentação – espero abordar todos esses temas em textos futuros - qualquer pouco será melhor que nada.  Outra possibilidade para quem não dispões de um espaço maior seria plantar em espaços abandonados (canteiros, praças, lotes vagos, beiras de acostamentos de estradas), opção essa que têm tripla função: 1) obter alimentos para você; 2) distrair as pessoas em um possível cenário de crise, já que poderiam utilizar esses locais para obter alimentos deixando sua produção e estoques intactos; 3) promover a integração de comunidade, conhecendo melhor sua vizinhança e ocupando espaços abandonados com atividades úteis a comunidade e não para outros usos – esse terceiro ponto inclusive foi a saída de muitas pequenas comunidades europeias para superar a recente crise. Tudo vai depender de como você gerencia seu espaço e o espaço a sua volta.




Para quem dispõe de áreas rurais como refúgios ou BOLs - mesmo que pequenas - as opções são ainda maiores, permitindo criar animais maiores e que dão maior produção ou mesmo um maior número de animais e expandir a quantidade de espécies cultivadas via sistema de plantio único ou rodízio de culturas. Contudo isso também demanda um dispêndio de tempo maior, com cuidados constantes que não são apenas esporádicos, as atividades de produção rural serão diárias ou com previsões semanais. Sendo contudo uma possibilidade de pré-preparo do terreno para a ocupação quando a crise estourar, mantendo um estoque no mesmo que te supra por um tempo, algumas culturas vegetais que necessitam de menores cuidados – como árvores ou plantas rústicas (plantas alimentícias não convencionais regionais são uma boa pedida, por serem rústicas e adaptadas a diversos terrenos sem interferência humana) e animais mais rústicos que se viram com recursos do próprio terreno – caprinos, algumas espécies ou raças de suínos, algumas de aves e algumas raças de gado – dependendo apenas de cuidados específicos esporádicos (cuidados veterinários e talvez algum equilíbrio de dieta).

Essas alternativas podem lhe dar um grande retorno pessoal em termos de produção de comida, sendo também uma atividade prazerosa, um modo de envolver as crianças nas preparações (a maioria delas adora animais e brincar com terra), um modo de envolver pessoas do núcleo familiar nas preparações, uma forma de se exercitar e fazer atividades físicas e se nada acontecer no final das contas é uma forma de ter comida saudável orgânica na mesa de sua família, um agrado para alguém, um complemento de renda no final do mês ou mesmo uma forma de integrar as pessoas de sua vizinhança fazendo novas amizades, construindo novos laços e melhorando sua vida junto com a de outras pessoas caso queiram aceitar o desafio de construir algo no bairro - lotes vagos são problemas sérios em cidades, principalmente quando não recebem limpezas periódicas sendo focos de mosquitos, ratos, baratas ou mesmo espaços onde são cometidas violências diversas ou ainda refúgio para pessoas que cometeram crimes.


Esse foi um pequeno texto introdutório. Espero poder tratar os itens indicados aqui de forma isolada, com as considerações específicas e a atenção que merecem. Espero ainda que gostem e fiquem a vontade para entrar em contato com críticas ou sugestões." 

Jay, sobrevivencialista e praticante de agricultura urbana 



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